30 de junho de 2017 - Escrito por Cláudio Almeida

Apocalypse Now é um filme épico de guerra dirigido por Francis Ford Coppola em 1979. O guião é baseado no romance de Joseph Conrad – O Coração das Trevas (Heart of Darkness) decorre durante a guerra do Vietname. O enredo relata a viagem missionária do capitão Benjamin L. Willard (Martin Sheen), um oficial do exército americano, enviado para a selva – Camboja – com um único objetivo: assassinar – através do uso da força que não é reprimida – um oficial das Forças Especiais Americanas, o coronel e desertor Walter E. Kurtz (Marlon Brando), que está fora de controlo e aparentemente louco. Kurtz, figura musculosa e enigmática, semelhante a Buda, controla uma tribo de vietcongs numa selva remota repleta de crânios e corpos em decomposição.

 

Kurtz representa todas as transgressões que a América tem feito na sua repressão da guerra e no início do filme o plano sequência mostra Willard seduzido pela ideia de Kurtz e capaz de fazer tudo para conseguir o objetivo proposto. Embora o filme deixe a confusão e ambivalência em torno da figura de Kurtz e de Willard, é significativo que Willard vai até ao fim com o seu homicídio.

 

O primeiro plano mostra uma devastação de árvores queimadas pelo napalm (é um conjunto de líquidos inflamáveis à base de gasolina gelificada, utilizados como armamento militar) com a canção dos Doors – The End – fornecendo uma banda sonora delével. Vemos Willard alojado num quarto de hotel de Saigão. Num plano sequência prolongado e uma montagem que utiliza hábil e subtilmente o som, vemos Willard bêbado e assistimos a flashback’s que nos mostram o sofrimento; as lâminas de um ventilador e a elevada desordem no quarto remetem-nos para o ambiente vivido na guerra do Vietname.

 

As lâminas da ventoinha que observamos no teto do quarto recordam as hélices de um helicóptero, o ícone singular simbólico da guerra do Vietname. Coppola junta tudo isto numa frame, que nos mostra: O Soldado – Willard ao olhar para as lâminas da ventoinha lembrasse – num estado espectral – o ataque aéreo final após a morte de Kurtz, mais propriamente uma premonição de eventos prestes a acontecer; ataque aéreo que na versão original surge com os créditos finais, mas que na última versão não é incluída –, a Ventoinha e o Helicóptero a sobrevoar a selva de Camboja.

 

Podemos então dizer que o filme é um circulo sem fim, isto é, podemos ver as vezes que quisermos que o filme tem sempre o mesmo sentido… as imagens iniciais são as últimas e ao recomeçarmos o filme percebemos que todo ele são flashbackss da memória de Willard.

 

Willard é levado à presença de dois funcionários do serviço de inteligência militar, o General Corman (GD Spradlin) e o Major Lucas (Harrison Ford), e um membro dos serviços secretos (Jerry Ziesmer), para o incumbirem da missão: viagem ao longo do rio Nung, que o levará à selva cambojana para encontrar o Coronel Walter E. Kurtz. Aqui dá-se início à missão… Willard segue o seu destino num barco patrulha da Marinha (PBR) com quatro tripulantes que servem como o microcosmo da força de guerra americana: o chefe do barco (Albert Hall), afro-americano, um ex-taxista que tenta manter-se vivo e jovem usando drogas; Chef (Frederic Forrest), um cozinheiro de New Orleans que entrou para a marinha porque achava que a comida era melhor que no exército; Clean, um adolescente negro do Bronx (interpretado por Laurence Fishburne, de 14 anos); e Lance, um surfista da Califórnia convocado para guerra (Sam Bottoms). Conforme o barco segue em direção ao Camboja, tudo parece estar sob o domínio da ilusão, da loucura e das sombras obscuras do coração humano.

 

O PBR chega a uma zona de aterragem onde Willard e o grupo encontram o Tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall), comandante excêntrico do 1º Batalhão / Regimento Cavalaria 9, e um grande surfista, reconhece Lance. Mais tarde, ele descobre a partir de um dos seus homens que a costa da praia é perfeita para o surf, um fator que o convenceu a atacar a costa da praia com um ataque aéreo, para poder ver Lance a fazer surf. A cena (o ataque aéreo à costa vietnamita – a viagem das valquírias) ficou famosa pela utilização de uma das óperas de Richard Wagner – Ride of the Valkyries –, acaba com os soldados a fazerem surf no meio de fogo cruzado. A ópera de Wagner leva-nos a afirma que os helicópteros funcionam aqui como as valquírias (as que selecionam os mortos da batalha). São preponderantes não só como a forte imagem que têm, como o som que produzem durante o filme.

 

Estas cenas também foram alteradas por Coppola na nova versão – Agora há mais camaradagem. Willard brinca com a tripulação, eles divertem-se com a conspiração do roubo da prancha de surf de Kilgore. Todos começam bastante normais e essa ingenuidade ajuda a ressaltar a tragédia que enfrenta durante a viagem. Agora há um melhor entendimento das personagens e das suas próprias loucuras.

 

À mediada que o barco navega rio acima, a iluminação e o modo sombrio dos planos e até a obsessão silenciosa de Willard com Kurtz torna-se mais intensa. Exemplo deste aumento de tensão, é o incidente na viagem, enquanto, Willard e Chef procuram por mangas tem um encontro com um tigre… Chef ao chegar ao barco diz uma importante frase – nunca abandonar o barco – que para Willar foi o que Kurts fez, abandonou o barco, isto é, abandonou os planos traçados para a Guerra. Para quebrar esta tensão Coppola, a meio da viagem pelo rio, coloca um espectáculo de mulheres da Playboy organizado pelas forças do exército americano. Esta é uma das cenas que não estava na versão original, Coppola explica o porquê: Isso nunca fez parte do filme porque filmamos durante uma tempestade e tivemos que parar e a cena nunca foi terminada. Mas, na nova versão, Walter achou um modo de inserir a sequência.

 

O barco continua a viagem ao longo do rio, chegam mais tarde ao último posto americano, na ponte Do Lung. Aqui existe um ataque à ponte por vietnamitas do Norte. Ao chegar, Willard recebe a última peça do puzzle dada pelo tenente Carlson, juntamente com o correio para a tripulação do barco. Lance, que tinha tomado LSD, vai com Willard a terra, fazem o seu caminho através de trincheiras onde se encontra muito pânico. Coppola devolve assim a tensão ao filme. No dia seguinte a tripulação cai numa emboscada por Vietcongs escondidos nas árvores próximas ao rio. Clean é morto enquanto ouve uma gravação da mãe. A cena seguinte é uma das que Coppola adicionou na versão lançada em 2001, em que Willard e a tripulação deparam-se com uma plantação de um francês, ao jantar surge a discussão acerca da história colonial do Vietname. Claramente, este nível de especificidade histórica foi criado para tentar incomodar o conteúdo alegórico da tensão do filme.

 

Apocalypse Now não é uma história especificamente sobre o combate, ou da experiência imediata da guerra, além da obsessão com o Vietname em si, o sentimento de posse que continua a exercer sobre aqueles que lutaram ali. O veterano transforma-se no locus significativo da ansiedade continuada sobre o legado da guerra e por este expediente a guerra do Vietname é o psicólogo e é feita completamente aberta ao trabalho de narrativas terapêuticas.

 

Nesta sequência que mostra o encontro no rio, o funeral de Clean, a discussão no jantar e a cena de sedução entre Willard e Roxanne, uma jovem viúva francesa (interpretada por Aurore Clement). Coppola afirma que captura um anseio exótico, uma busca por antigos ideais e por uma forma de vida que profetiza e essencialmente prediz a insensatez da experiência americana no Vietname. Estas personagens são como os fantasmas de Bunuel: pessoas presas a pensamentos do passado. Eu sempre gostei desta cena porque aqui, os homens do barco realmente deixam a civilização para trás e voltam no tempo. A personagem Aurore dá a Willard uma sensação de vida e de conforto antes de enfrentar a extrema loucura de Kurtz. Aurore Clement acrescenta: acho que a plantação realmente acrescenta alguma coisa porque antes há aquelas cenas de homens, batalhas, morte e guerra e então vem esta cena sobre doçura, vida, sensualidade e amor. É uma rara cena erótica num filme de guerra – e é uma cena bonita. Fala sobre os dois lados da humanidade: um que ama e um que mata.

 

A viagem continua… E finalmente Willard chega a onde está Kurtz. Algum tempo de cativeiro e finalmente chega o momento desejado: o assassínio de Kurtz. Enquanto Willard mata Kurtz, Coppola mostra ao mesmo tempo o exército da guerrilha, de Kurtz, Montagnard a festejar… o último plano, após o homicídio, mostra este mesmo “exército” curvado perante Willard, o seu novo líder, a largar as suas armas – Queria colocar a minha visão sobre o futuro, um futuro quando se pensa no mundo para além destes conflitos, nos tempos modernos. Um futuro sem guerra… e por isso era necessário atirar fora as armas. Este término implica a continuidade de um processo em que o papel da América no Vietname se torna mais violento e mais intratável.

 

Uma série de outras mudanças fundamentais na imaginação cultural da guerra são notáveis, em Apocalypse Now. Kurtz estima uma cópia do ramo dourado, um trabalho detalhado da religião comparativa que se centra sobre o mito e o ritual em contextos culturais diferentes, e o dilema mostra um sacrifício ritual de uma vaca nas suas sequências decisivas.

 

Através da ação do mito, desta maneira as cenas que mostram o homicídio de Kurtz descrevem o evento como quase inevitável, a parte de um processo universal preso ao ritualismo da humanidade, da violência e da morte.

 

Poucos saberão mas Apocalipse Now teve várias opções para o final do filme: uma em que é solicitado um ataque aéreo por Willard e com o qual apareciam os créditos finais; e a outra opção é quando vemos o exército de Kurtz a largar as armas. Mas o que ele achou do final escolhido? Na opinião de Coppola, o final é o mesmo… mas o escolhido parece ser mais apropriado e mais satisfatório do que o outro:

 

Estando a entrar na fase final da edição do filme Apocalypse Now e da sua apresentação ao público começou a gerar-se muita controvérsia acerca do filme. É claro que era um filme misterioso e começou a circular que haveria muitas possibilidades para o seu final. Acho que aquilo que causou esta impressão foi o facto de haver várias opções. Uma das opções era a explosão do acampamento de Kurtz. Construímos lá nas Filipinas uma grande estrutura permanente, mas por lei era preciso destruí-la. Tínhamos a ideia que era necessário atirar fora as armas – (pouco tempo após o assassínio de Kurts – quando o exército de Kurtz larga as armas). Talvez para uma nova era. A ideia de ele chamar as forças áreas pareceu-me errado para transmitir o que eu estava a tentar expressar. Relembro as pessoas que, para este filme, esta não tinha sido a ideia inicial. Esta sequência da explosão do acampamento de Kurts, das várias câmaras, foi um erro. Resultou num extra, numa coisa em si própria, não num fim alternativo. O fim do filme tornou-se num novo acontecimento… Queria colocar a minha visão sobre o futuro, um futuro quando se pensa no mundo para além destes conflitos, nos tempos modernos. Um futuro sem guerra… e por isso era necessário atirar fora as armas.

Filmes de Guerra ou Filmes Anti-guerra? Eis a questão! – 2ª Parte

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